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  • Jose Edmar Gomes

HUGO RODAS

Gracias a la vida, apesar da morte

Hugo Rodas
(crédito: Gustavo Moreno/CB)

Ele teve forte militância na cena teatral brasiliense, desde meados dos anos 1970. No seu portifólio de diretor consta o primeiro espetáculo do cantor Oswaldo Montenegro: o musical João Sem Nome, de 1976, que contribuiu para consolidar sua atuação aqui. Vinte anos depois, ele receberia o Prêmio Shell por Dorotéia, de Nélson Rodrigues.


Aliás, prêmios e reconhecimento não faltaram na trajetória deste artista uruguaio que escolheu Brasília para viver, cujos governos o agraciaram com os títulos de Comendador e Oficial da Ordem do Mérito Cultural de Brasília em 1991 e 1992; Cidadão Honorário de Brasília (2000).

Já os títulos de Notório Saber em Artes Cênicas de 1998 e o de Professor Emérito (2014), foram concedidos pela Universidade de Brasília, onde HUGO RODAS lecionou durante 20 anos.


O diretor uruguaio fez florescer o teatro brasiliense e dirigiu espetáculos inesquecíveis, que estão na memória cultural e afetiva da capital, como o Senhora dos afogados (1987), A casa de Bernarda Alba (1988/91), A menina dos olhos (1990/91), Romeu e Julieta (1993/99), O olho da fechadura (1994/95), Rosanegra – uma Saga Sertaneja (2002/05), O rinoceronte (2005/2006) e Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo (2005-2015), só para citar alguns.


RODAS, no entanto, lutava contra um câncer, há alguns anos. Mas antes, de morrer nesta quarta-feira santa, 13 de abril de 2022, no Hospital Brasília, o ator, diretor, coreógrafo, cenógrafo, figurinista, bailarino, e professor, que pontificou como um dos maiores artistas de teatro do seu tempo, despiu-se da sua irreverência e dirigiu o musical Gracias a la Vida, em 16 de outubro de 2021, no teatro do Complexo Cultural de Planaltina, num surpreendente gesto de generosidade, pois era visível o seu esforço físico e abnegação.


O musical, também foi apresentado, no Teatro Sesc Newton Rossi, de Ceilândia, na noite de 23 de outubro, com lotação máxima permitida naqueles tempos de pandemia acirrada. Os ingressos, disponibilizados na plataforma Sympla, esgotaram-se em poucas horas.

Hugo Rodas e o elenco do Projeto Gracias a la Vida
Hugo Rodas e o elenco do Musical Gracias a la Vida

Gracias a la vida, o último trabalho de direção de RODAS, foi inspirado na canção imortal de Violeta Parra e traz à luz a memória simbólica da resistência dos povos latino-americanos, recuperando a ancestralidade indígena, em harmonia com a natureza, ao mesmo tempo que exorciza a invasão europeia, através de canções-ícones, compostas por artistas resistentes, que construíram um universo de símbolos, que denunciam a colonização, durante cinco anos de história.


Apoiado numa bengala, locomovendo-se e falando com dificuldade, HUGO RODAS proporcionou um momento de absoluta empatia e comoção, quando subiu ao palco para receber os aplausos do público que lotava as dependências dos dois teatros.


As pessoas - entre gratificadas, surpresas e arrebatadas com o que viram e ouviram - choravam e se abraçavam, enquanto ouviam um discurso quase inaudível do diretor, que ali, mesmo que inconscientemente, se despedia dos holofotes.


Dorival Brandão, produtor de Gracias..., ao tempo que lamenta a perda do diretor, louva a sorte de ter contado com ele neste musical, que foi a primeira incursão no gênero das produtoras culturais Artise e Tupac, revestida de reconhecimento e elogios. Gracias a la vida pretendia seguir para palcos nacionais, assim que a pandemia o permitisse.


Possibilidade que se torna mais difícil com a ausência de RODAS. Mas que, no entanto, “não deixará de ser perseguida, em sua memória”, como afirma Dorival Brandão.

Hugo Rodas e o Elenco do Gracias a la Vida

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