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  • Jose Edmar Gomes

Carlos Ramos

Um seresteiro além do seu tempo

O cantor CARLOS RAMOS afirma com todas as letras e notas musicais que já nasceu apaixonado pela música. Ele é uma espécie de músico em extinção, que tem na velha guarda, ou seresta, a fonte do seu repertório e sua vivência musical.


Aos 11 anos, quando estudava no Ginásio Dom Prudêncio de Posse-GO, ele já se apresentava nas festas cívicas e de aniversário da escola. Então, ele logo trocou as bolinhas de gude e bolas de futebol, feitas do látex das mangabeiras, pelo exercício de cantar os sucessos que o rádio tocava na época.

À sombra de uma frondosa mangueira - no quintal do pensionato onde vivia e tendo como plateia apenas a cumplicidade de um coleguinha - ele entoava os versos do bolero Lada a lado: Lado a lado, meu amor, mas tão longe/Como é grande a distância entre nós. Composição de Jerônimo Bragança/Nóbrega e Souza, gravado pelo mineiro “chorão”, Carlos Alberto, em 1963.


Naquelas audições, às vezes, solitárias, à sombra da mangueira, o garoto Carlinhos Ramos também ecoava os versos do tango Silêncio, de Carlos Gardel, muito apropriados para os dias de hoje: Silêncio na noite...! já está tudo em calma/(...)/ Um clarim se ouve...Periga a Pátria/E nos campos de guerra, os homens se matam, /Cobrindo de sangue, os campos de França.


Foi ainda na Rainha do Nordeste Goiano, cujas missas da Igreja Nossa Senhora de Santana eram oficiadas ainda em latim, que Carlos Ramos entrou em contato com a língua-mãe das línguas latinas. Cantando no coral, ele decorou várias músicas no idioma lácio.


Carlos Ramos, como se vê, já pegava pesado nas interpretações, desde aquele tempo, imitando grandes vozes da época, que, felizmente, chegaram até nós por gravações e pelo rádio, que, infelizmente, hoje, só veicula “bate-estacas” e coisas efêmeras.


FOLHA MORTA

De volta a sua terra, São Domingos-GO, seu amigo, Francolino de Tal, já possuía um violão e foi naquele instrumento que o futuro seresteiro aprendeu a tocar. O tempo foi passando... e ele permaneceu de ouvido ligado no que o rádio tocava. Até que um dia, ouviu Jamelão cantando Folha morta, de Lupicínio Rodrigues.


Aqueles acordes, melodia e voz lhe causaram forte impacto, tanto que ele passou a buscar onde estava tudo aquilo que os versos: Sei que falam de mim/ Sei que zombam de mim/Oh, Deus!/ Como sou infeliz,... diziam.


A partir daí, Francisco Alves, Anísio Silva, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Carlos Galhardo, Francisco Petrônio, Carlos José e outras grandes vozes do cancioneiro popular do Brasil foram sendo ouvidas e absorvidas por Carlos Ramos, que passou a construir um repertório que, até hoje, domina suas apresentações. Tudo isso, combinado com canções de Roberto Carlos. Afinal, o Rei, jamais perdeu sua majestade.


Alguém já me disse que CR cantava fora do tempo. Mas, como cantar a Deusa da minha rua no tempo dos “play boys”? Ele canta mesmo é no passado, onde está a sua sensibilidade poética e musical, (se é que vocês m entendem...)


GINÁSIO DA QUADRA 4

No início dos anos 70, o jovem cantor muda-se para o Distrito Federal, residindo inicialmente no Guará e no Núcleo Bandeirante, depois se estabeleceu em Sobradinho, onde concluiu o segundo grau, na primeira turma do curso profissionalizante de contabilidade, no então Ginásio da Quadra 4.

Na Cidade Serrana, passou a integrar a banda de baile Som da Noite, que animava os finais de semana do clube Sodeso, da casa noturna Coisas do Norte, de eventos de paróquias e festas particulares, durante vários anos.

No meio da semana, Carlos Ramos percorria várias cidades, como representante comercial de empresas do Sul do País, onde também cantava profissionalmente, sempre que possível, e assim permaneceu por 22 anos.


Depois que o auge dos clubes sociais passou e, diante das várias crises econômicas, o nosso seresteiro dedicou-se ao ramo de bares e restaurantes, começando com um barzinho na Quadra 8; depois com os restaurantes à la carte, Eventus, na Quadra 17; e Sobradinho Beer, às margens da BR 020, onde se apresentaram a, hoje, estrela, Ellen Oléria; Juanito da Arpa, Osvaldo Sá; Priscila Ávila; maestro Alex Paz e o próprio Carlos Ramos.


SEGUNDA SEM LEI

Em seguida, ele migra o negócio para a Quadra 14, onde comandou dois bares, por quase duas décadas, e criou a famosa Segunda Sem Lei, um encontro de músicos, aberto ao público, quando os músicos de folga davam suas canjas, numa festa que varava as madrugadas.


O grande diferencial da Segunda Sem Lei de Carlos Ramos, além da variedade de música ao vivo, era a confiança nos clientes, que se serviam de bebidas no sistema self-service e só prestavam contas no final da festa.


Agora, depois que as consequências da pandemia para o entretenimento estão passando (e há de passar, totalmente), Carlos Ramos está voltando, com todo gás, às atividades musicais e já preparou um repertório especial para apresentações, nas melhores casas noturnas de Sobradinho, ao lado de grandes músicos.


Para o seresteiro de Sobradinho, a música deve transmitir amor, sensibilidade e paixão. “E quem representa tudo isso, hoje, no Brasil, é Roberto Carlos. Roberto é tudo,” finaliza.


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