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  • Jose Edmar Gomes

ELZA SOARES - ET, estrela, heroína das favelas ou vítima de todos os preconceitos?


Elza Soares

-- Acho que vou morrer – disse a cantora Elza Soares aos seus familiares, por volta das 14h30, da quinta-feira, 20 de janeiro de 2022, dia de São Sebastião e do 39º aniversário da morte de Mané Garrincha, sua paixão definitiva. Quarenta minutos depois da frase profética, ela fechou os olhos e morreu.

A cantora, que nasceu Elza Gomes da Conceição, a 23 de junho de 1930, parecia imortal, mas partiu antes que o mundo acabasse. Afinal de contas, ela não ia pagar pra ver a bagaceira que vem por aí, com tanto tráfico, milícia, vírus, negacionismo e idiotices presidenciais.

Afinal, ela já tinha apanhado muito da vida. Ainda na infância, São Jorge lhe apareceu e disse que ela iria apanhar mais da vida do que do pai.


E Elza apanhou de verdade. Apanhava da molecada na rua; apanhava do pai, porque apanhava na rua; apanhava da fome; apanhava do primeiro marido; apanhava da cachaça de Mané Garrincha; apanhava...


Habitante do planeta fome da periferia carioca, nascida na emblemática Vila Vintém, uma favela que fica no meio dos bairros Realengo e Padre Miguel, berço de duas instituições memoráveis do samba: a Mocidade Independente (Lá vem a bateria da Mocidade Independente, não existe mais quente...) e da Unidos de Padre Miguel (que, em 1982, desfilou com o enredo Ary Barroso, o gênio imortal).


Ainda muito pequena, a família foi morar em Água Santa, outra favela da mesma Zona Norte. O samba, pois, estava no seu DNA. Seu pai, Avelino Gomes, tocava violão e ela o acompanhava cantando, até que uma briga de rua com um moleque despertou a desconfiança do velho, que a obrigou a se casar com um amigo da família, um tal de Lourdes Antônio Soares, bem mais velho do que ela, pensando que ela teria sido estuprada na briga.


Resto de comida do lixo


Elza tinha apenas 12 anos e passou a fugir da fome, como o diabo foge da cruz, mas acabou sendo mãe aos 13 anos, perdeu dois filhos de desnutrição e ficou viúva aos 21 anos. A vida, até então, não lhe dera nenhuma chance. Ao contrário, lhe roubara tudo, inclusive dois filhos...

Aliás, os filhos foram o grande carma de Elza, lado a lado com a fome. Ela contou, em suas entrevistas, que os dois primeiros morreram mesmo de fome, em meados dos anos 50. ”Eu espantava os urubus pra pegar resto de comida no lixo”, contou ela à Globo.


A cantora também suportou calada, quando um casal de sua “confiança”, desapareceu com sua filha Dilma, que veio a reaparecer-lhe somente 30 anos depois. Já em 1969, Garrincha teria causado um grave acidente, depois de beber, que matou sua mãe, dona Rosária da Conceição.


Em 1982, o casal se separou e Garrincha viria a morrer no ano seguinte. Mas as tragédias não pararam por aí. Em 1986, outro acidente de carro matou Garrinchinha (Manoel Francisco dos Santos Júnior), então com nove anos, único filho dela com o jogador.


Em 2015, outro filho, Gílson, de 59 anos, morreria após sofrer uma infecção. “A única coisa do passado que ainda me machuca é a perda dos meus quatro filhos. É uma ferida aberta que não cicatriza”, diria Elza, então.


A outra


Diante de tanta dureza e dos ataques à sua postura de mulher, Elza desenvolveu uma língua poderosa e revidava seus detratores falando ou cantando. Em 1963, gravou Eu sou a outra, composta pelo jornalista Ricardo Galeno (Ele é casado/ E eu sou a outra na vida dele/ que vive igual a uma brasa/ Por lhe faltar tudo em casa)


A música enfureceu a imprensa e os conservadores, que já via com maus olhos a simpatia da cantora pela esquerda (ela apoiava João Goulart). Situação que recrudesceu com a ocorrência do golpe militar.

Elza revelou a Fábio Porchat, em 2018, que os milicos metralharam sua casa, no Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, em 1970, e um bilhete encontrado debaixo da porta deu ao casal 24 horas para sumir do Brasil. Eles viram que a coisa não era brincadeira e correram para a Itália, praticamente com a roupa do corpo.

Na Europa, encontraram artistas brasileiros, como Caetano, Gil e Chico Buarque. Elza chegou a substituir Ella Fitzgerald, numa turnê, enquanto a estrela americana passava por procedimento médico. Os nomes eram até parecidos, mas a plateia estranhava quando via outra pessoa no palco, mas Elza contava que acabava aplaudida de pé no final dos shows.

Quando voltou ao Brasil, o racismo, o preconceito e o machismo continuaram a sufocá-la e a afastá-la dos palcos. Elza chegou a cantar em circos para sobreviver e pensou em parar de cantar.


Mais uma vez, a ajuda providencial de Caetano recolocou sua vida nos trilhos. Ela gravou com o baiano, no disco Velô, de 1984, o rap Língua (Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa/E sei que a poesia está para a prosa/Assim como o amor está para a amizade).


Elza também teve flertes com os roqueiros: gravou com Lobão a Voz da Razão, no disco o Rock Errou, de 1986; e Milagres, com Cazuza, no álbum Somos todos iguais, de 1985. A voz de Elza sempre foi ouvida, para explicar o milagre de sua existência ou para encarar as adversidades. Em 2009, ela disse ao site Ego:

“Minha primeira academia foi subir o morro carregando lata d’água na cabeça. Não existe academia melhor. As pernas ficam gostosas, o bumbum duro. Quando me perguntam a minha idade, digo que tenho a idade da bunda dura. Este é o país das bundas.”

Planeta fome


E, mais uma vez, indignada com a situação política do Brasil, em 2020, ela declarou ao g1:

“Vim do planeta fome e continuo no planeta fome. É um país desigual, é uma coisa horrível, a gente vive nisso."


Apesar da sua competência como artista e da admiração que o mundo lhe devotava como cantora, a grande bofetada que Elza desferiu nos seus detratores ocorreu ainda, em 1953, no marco zero de sua carreira.


Para salvar seu filho mais velho, João Carlos, da morte, ela decidiu participar do programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, na Rádio Tupi. O prêmio estava acumulado e ela, por sua clarividência, tinha certeza de que o ganharia.


Mas o preconceito, a desumanidade e a arrogância do apresentador, que era, também, o Galvão Bueno da época e autor do mundialmente famoso samba Aquarela do Brasil, ao invés de humilhar a senhorinha do subúrbio, lhe deram a oportunidade de mostrar para o Brasil quem era e quem seria, de fato, Elza Soares.


“Eu não tinha roupa nem sapatos, não tinha nada! Então, eu peguei uma roupa da minha mãe, que pesava 60 kg e vesti, só que eu pesava 32 kg, já viu né? Ajustei com alfinetes.”


A cantora lembrou que a plateia riu ao vê-la daquele jeito no palco. “O auditório estava lotado e todo mundo começou a rir alto, debochando de mim", relembrou, em suas várias entrevistas à mídia. Elza, então, narrou a conversa que teve com Ary Barroso:

-- O que você veio fazer aqui?

-- Eu vim cantar!

-- Mas me diz uma coisa: de que planeta você veio?

-- Do mesmo planeta do senhor, seu Ary...

-- E qual é o meu planeta?

-- O planeta fome!


Seu Ary arregalou os olhinhos de rato, o auditório se calou e, depois que Elza cantou o magnífico samba Lama, (de Aylce Chaves e Paulo Marques), cujos versos: Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama/Viveu na lama também, acabaram de nocautear o famoso apresentador que teve que admitir que ali “acabava de nascer uma estrela”.


"O Gongo não soou e eu ganhei, levei o prêmio e meu filho está vivo até hoje, graças a Deus! De lá pra cá, sempre levo comigo um alfinete", afirmou ela.


Anos mais tarde, Elza Soares refletiu sobre o episódio e chegou à conclusão profunda sobre a existência humana:

"Eu achava que se tivesse alimentos para os meus filhos, não teria mais fome. O tempo passou e eu continuei com fome, de cultura, de dignidade, de educação, de igualdade e muito mais, percebo que a fome só muda de cara, mas não tem fim. Há sempre um vazio que a gente não consegue preencher e talvez seja essa mesma a razão da nossa existência", concluiu.

Em 1999, Elza foi eleita a cantora brasileira do milênio, pela BBC de Londres e, em 2003 disputou o Gammy Latino pelo álbum Do cóccix ao pescoço.


Mulher do fim do mundo/Maria da Vila Matilde

Em 2015, Elza gravaria outra página musical definitiva, A Mulher do fim do mundo (Rômulo Fróes/Alice Coutinho), cuja letra é um retrato falado da artista e sua altivez: Na avenida deixei lá/ A minha fala, minha opinião/ A minha casa, minha solidão/ Joguei do alto do terceiro andar.


O álbum do mesmo nome, produzido com apoio financeiro da Natura, foi o seu 34º álbum e o primeiro só com músicas inéditas, em 60 anos de carreira. Entre elas Maria da Vila Matilde (Cadê meu celular?/ Eu vou ligar pro 180/ (...) Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim, de autoria do paulistano Douglas Germano.


O mercado soube valorizá-lo: o trabalho lhe deu o Troféu APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte); o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB e o Prêmio da Música Brasileira.


A cantora, ainda gravou DVD, no Theatro Municipal de São Paulo, dois dias antes de morrer, cumprindo, assim, sua promessa de cantar até morrer.


A vida de Elza, foi tema de livros, inúmeros artigos e reportagens, certamente não cabe nestas modestas linhas, há um imenso universo a ser explorado. Afinal, além de ser a nossa Voz do Milênio, ela é a voz brasileira que o mundo (incluindo Louis Armstrong) sempre ouviu e valorizou.


Gente assim, jamais morrerá. Mas, fiquem atentos, agora, o mundo pode acabar.

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