A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa

15 Nov 2018

A história do povoamento das Américas acaba de ganhar uma nova interpretação. O maior e mais abrangente estudo já feito a partir de DNA fóssil, extraído dos mais antigos restos humanos achados no continente, confirmou a existência de um único contingente populacional ancestral de todas as etnias ameríndias, passadas e presentes.

 

Há mais de 17 mil anos, os membros daquele contingente original cruzaram o estreito de Bering, da Sibéria para o Alasca, para então povoar o Novo Mundo. O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China, ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como indicava a teoria tradicional.

 

Uma vez na América do Norte, é o que revela o novo estudo, os descendentes daquela corrente migratória ancestral se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Os membros de uma das linhagens cruzaram o istmo do Panamá e povoaram a América do Sul em três levas consecutivas e distintas.

 

A primeira dessas levas ocorreu entre 15 mil e 11 mil anos atrás e a segunda se deu há no máximo 9 mil anos. Há registros do DNA fóssil de ambas as migrações em todo o continente sul-americano. Uma terceira leva é bem mais recente e de influência restrita, pois se deu há 4,2 mil anos, e seus membros se fixaram nos Andes centrais

 

O estudo foi publicado na revista Cell por um grupo de 72 pesquisadores de oito países, pertencentes a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Harvard University, nos Estados Unidos, e o Instituto Max Planck, na Alemanha.

 

Os resultados da pesquisa sugerem que, na linhagem de humanos a executar o trajeto norte-sul entre 16 mil e 15 mil anos atrás, seus membros pertenciam à chamada cultura Clóvis, o nome dado a um conjunto de sítios arqueológicos que têm entre 13,5 mil e 11 mil anos, todos situados no oeste dos Estados Unidos.

 

Clóvis é o nome da pequena cidade no Novo México onde foram descobertas, nos anos 1930, as primeiras pontas de flecha de pedra lascada cujo formato se tornou um identificador da cultura homônima. Na América do Norte, a cultura Clóvis está associada à caça da megafauna pleistocênica, como preguiças gigantes e mamutes.

 

Com o declínio e a extinção da megafauna, há 11 mil anos, aquela cultura eventualmente desapareceu. Muito antes disso, entretanto, bandos de caçadores-coletores, ao explorar novas áreas de caça cada vez mais ao sul, eventualmente acabaram por ocupar a América Central, como comprova o DNA fóssil de 9,4 mil anos de um humano de Belize analisado no novo estudo.

 

Posteriormente, talvez em perseguição a manadas de mastodontes, bandos de caçadores-coletores Clóvis cruzaram o istmo do Panamá para invadir e se espalhar pela América do Sul, como evidenciam os registros genéticos de enterramentos humanos no Brasil e no Chile agora revelados. Tal evidência genética vem corroborar evidências arqueológicas conhecidas, como o sítio Monte Verde, no sul do Chile, onde humanos esquartejavam mastodontes há 14,8 mil anos.

 

Entre os diversos sítios Clóvis conhecidos, o único enterramento humano associado às ferramentas da cultura fica no estado de Montana. Lá foram achados os restos de um menino – apelidado de Anzick-1 – com cerca de 12,6 mil anos. O DNA extraído de seus ossos está relacionado ao DNA dos esqueletos do povo de Lagoa Santa, um grupo de humanos antigos que habitou o Brasil central – mais especificamente as grutas no entorno de Lagoa Santa (MG) – entre 10 mil e 9 mil anos atrás. Em outras palavras, o povo de Lagoa Santa descende em parte dos migrantes da cultura Clóvis da América do Norte.

 

“Do ponto de vista genético, o povo de Lagoa Santa descende dos primeiros ameríndios”, disse o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que coordenou a parte brasileira do trabalho.

 

“Surpreendentemente, os membros daquela primeira linhagem de sul-americanos não deixaram descendência identificável entre os povos ameríndios atuais. Em torno de 9 mil anos atrás, seu DNA desapareceu completamente das amostras fósseis. Foi substituído pelo DNA da primeira leva migratória, anterior à cultura Clóvis, da qual descendem todos os ameríndios vivos. Ainda não sabemos os motivos que levaram ao desaparecimento do estoque genético do povo de Lagoa Santa”, disse.

 

Uma possibilidade para o sumiço do DNA da segunda migração, encontrado no DNA do povo de Lagoa Santa, é que tenha se diluído em meio ao DNA dos ameríndios descendentes dos integrantes da primeira leva populacional, tornando-se não identificável pelos métodos atuais da pesquisa genética.

 

De acordo com a geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que participou da pesquisa, “um dos principais resultados do trabalho foi a identificação do povo de Luzia como sendo uma população geneticamente relacionada à cultura Clóvis, o que desfaz a ideia dos dois componentes biológicos, da possibilidade de ter havido duas migrações para as Américas, uma com traços mais africanos e a outra com traços mais asiáticos”.

 

“O povo de Luzia seria resultado de uma leva populacional originária da Beríngia”, disse, referindo-se à ponte de terra hoje submersa que, durante a era do gelo, quando o nível dos mares era muito mais baixo, ligava a Sibéria ao Alasca.

 

“De 9 mil anos para cá, os dados moleculares sugerem que houve uma substituição populacional na América do Sul. Os membros do povo de Luzia desapareceram, sendo substituídos pelos ameríndios atuais, muito embora ambos tenham tido uma origem comum, na Beríngia”, disse Hünemeier.

 

Contribuição brasileira

 

O trabalho dos pesquisadores brasileiros contribuiu de forma fundamental para o estudo. Entre 49 indivíduos dos quais se extraiu DNA fóssil, sete esqueletos com idades entre 10,1 mil e 9,1 mil anos são provenientes da Lapa do Santo, um abrigo rochoso em Lagoa Santa.

 

Aqueles sete esqueletos, ao lado de dezenas de outros, foram achados e desenterrados em campanhas arqueológicas sucessivas no local, lideradas primeiramente pelo antropólogo físico Walter Alves Neves, do IB-USP, e desde 2011 por Strauss. As campanhas arqueológicas movidas por Neves entre 2002 e 2008 foram financiadas pela FAPESP.

 

Ao todo, o novo estudo investigou o DNA fóssil de 49 indivíduos, provenientes de 15 sítios arqueológicos situados na Argentina (2 sítios, 11 indivíduos com idades entre 8,9 mil e 6,6 mil anos), Belize (1 sítio, 3 indivíduos, idades entre 9,4 mil e 7,3 mil anos), Brasil (4 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 1 mil anos), Chile (3 sítios, 5 indivíduos, idades entre 11,1 mil e 540 anos) e Peru (7 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 730 anos).

 

Os esqueletos brasileiros são provenientes dos sítios arqueológicos Lapa do Santo (7 indivíduos com cerca de 9,6 mil anos), do sambaqui Jabuticabeira 2 (5 indivíduos com cerca de 2 mil anos), que fica em Santa Catarina, e de dois sambaquis fluviais do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo: Laranjal (2 indivíduos com cerca de 6,7 mil anos) e Moraes (1 indivíduo com cerca de 5,8 mil anos).

 

O arqueólogo Paulo Antônio Dantas de Blasis, do MAE-USP, foi o responsável pelo trabalho arqueológico no sambaqui Jabuticabeira 2, que também teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático.

 

As pesquisas nos sambaquis fluviais paulistas ficaram sob a responsabilidade do arqueólogo Levy Figuti, do MAE-USP, também com apoio da FAPESP.

 

“O esqueleto de Moraes (5,8 mil anos) e o de Laranjal (6,7 mil anos) estão entre os mais antigos do Sul-Sudeste brasileiros. Eles apresentam uma situação estrategicamente singular ao estar entre o planalto e a costa, contribuindo significativamente para a compreensão do processo de povoamento da região Sudeste do Brasil”, disse Figuti.

 

Esses esqueletos foram encontrados entre 2000 e 2005. Desde o início, representavam uma questão complexa, com mistura de características culturais interioranas e costeiras, e com análises sobre os esqueletos geralmente com resultados variados, exceto em um esqueleto, que foi diagnosticado como paleoíndio (ele ainda não teve sua análise de DNA completada).

“O estudo agora publicado representa um grande avanço na pesquisa arqueológica, aumentando exponencialmente o que sabíamos há poucos anos sobre a arqueogenética do povoamento da América”, disse Figuti. Mais recentemente, destaca-se a contribuição para a reconstrução da história humana na América do Sul por meio da paleogenômica, realizada por Hünemeier.

 

Genética ameríndia

 

Nem todos os restos humanos fósseis achados em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas Central e do Sul pertencem a indivíduos geneticamente descendentes da cultura Clóvis. Há diversos sítios cujos habitantes não tinham o DNA associado à Clóvis.

 

“Isso mostra que, além da contribuição genética, a segunda leva migratória para a América do Sul, e que era relacionada à Clóvis, possivelmente também trouxe consigo princípios tecnológicos que seriam expressos nas famosas pontas rabo de peixe que são encontradas em grande parte da América do Sul”, disse Strauss.

 

Até agora não se sabia quantas correntes migratórias humanas originárias da Ásia teriam adentrado as Américas no final da era do gelo, há mais de 16 mil anos. A teoria tradicional, formulada nos anos 1980 por Walter Neves e outros pesquisadores, dava conta de que teria havido uma primeira leva de humanos, cujos membros possuíam características africanas ou semelhantes aos aborígenes da Austrália.

 

Foi de acordo com essa hipótese que se modelou a famosa reconstrução facial de Luzia, nome dado ao crânio de uma mulher que viveu em Lagoa Santa há 12.500 anos e, por isso, carinhosamente chamada de “a primeira brasileira”.

 

O busto de Luzia com feições africanas foi composto a partir da morfologia de seu crânio, em trabalho realizado pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990.

“Entretanto, a forma do crânio não é um marcador confiável de ancestralidade ou de origem geográfica. A genética, por outro lado, é a técnica que se presta por excelência a esse tipo de inferência”, disse Strauss.

 

“Os resultados genéticos do novo estudo mostram de forma categórica que não existiu